A volta do plástico verde ao Brasil, com a retomada de uma tecnologia que ficou praticamente 30 anos adormecida, está sendo marcada por uma súbita mudança de rumos. O produto fabricado a partir da cana-de-açúcar, inicialmente apontado como concorrente do plástico desenvolvido com derivados do petróleo, buscará novos mercados. A proposta dos fabricantes é esquecer essa concorrência, na qual as margens poderiam ser mais estreitas, e buscar segmentos no qual o tema sustentabilidade tem maior apelo.
Produto diferenciado para um novo mercado
O foco no cliente chamado de "politicamente correto" deverá afastar o produto verde, de nichos onde o consumo do plástico é representativo, como sacolas e peças de recipientes domésticos. Sem capacidade para atender a toda a demanda, os fabricantes devem priorizar o setor de embalagens. O raciocínio por trás dessa estratégia é simples: nesse novo mercado o consumo de plástico por unidade é baixo e o consumidor se mostra disposto a pagar um prêmio por um produto diferenciado, principalmente no segmento de itens de beleza e higiene. Entre a principal fabricante desse setor, a brasileira Braskem, e as futuras concorrentes, como Dow Chemical e Solvay, a aposta é no desenvolvimento de um novo mercado. Não há interesse em concorrer com o plástico convencional. O objetivo é criar uma disputa apenas entre os plásticos verdes e nessa disputa quem investir no Brasil tende a ser beneficiado.
Brasil ainda não aproveita a palha da cana
Estimativas do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) apontam que a competitividade da cana brasileira pode ser até quatro vezes superior a do milho. A produtividade de biomassa seca da cana é de 40 toneladas ao ano por hectare, em relação a um indicador de 8 a 10 toneladas anuais por hectare de milho. A diferença de competitividade da cana e seu principal concorrente no ramo da alcoolquímica tende a ser ainda mais expressiva no futuro, assim que o Brasil aprender a dar melhor destinação às sobras da colheita. Análise do CTC aponta que o Brasil ainda não aproveita a palha da cana. Da mesma forma, a utilização do bagaço na geração energética é pouco disseminada.
Indústria automotiva abrirá um mercado enorme
Sem concorrentes e diante de um mercado ainda limitado de oferta, os fabricantes que apostam na produção de plástico verde acreditam que a criação de um mercado específico é a melhor alternativa para garantir melhores margens. Essa aposta também está sustentada na previsão de que a fabricação do produto continuará inferior à demanda mundial. Se por um lado o investimento em novas fábricas "verdes" ainda é pontual, por outro o potencial de avanço do produto é enorme. Neste momento, a resina verde utilizada na fabricação de peças plásticas está em processo de homologação pela indústria automotiva. Assim que o produto obtiver o aval para ingressar nas linhas de produção de veículos, a demanda deverá apresentar salto expressivo, resultado do volume de resina utilizada por peça e do tamanho do mercado automotivo mundial.
Plástico verde continuará se caracterizando como um produto premium
As montadoras, cujo apelo ambiental é estendido às campanhas publicitárias em todo o mundo, devem reforçar o diferencial do carro "verde", mesmo que apenas parte do plástico tenha origem em fontes renováveis. Essa estratégia não seria novidade, uma vez que indústrias de alimentos e de higiene e limpeza também adotam tal prática. A Nestlé, por exemplo, divulgou em parceria com a Braskem e a Tetra Pak a utilização do plástico verde em sua linha de leites Ninho e Molico. O produto diferenciado, entretanto, está apenas nas tampas das embalagens e não em toda sua composição. Essa especificidade não deve ter maior relevância junto aos consumidores, que se interessam pelo tema, mesmo sem ter conhecimento amplo sobre sustentabilidade. O movimento de produtos politicamente corretos só não será mais amplo devido à escassez de produtos.
Para os fabricantes, entretanto, é importante que essa situação se mantenha. Dessa forma, o plástico verde continuará se caracterizando como um produto premium. É essa diferenciação que permitirá ao plástico verde traçar um caminho em paralelo, ao mercado do plástico convencional, produzido a partir do petróleo. Com trajetórias distintas, as margens do produto verde estão garantidas e a continuidade do mercado tradicional, no qual empresas como Braskem, Dow e Solvay da mesma forma estão presentes, também. /Agestado