Para compensar as perdas com a concorrência das importações asiáticas e voltar a crescer, a fabricante têxtil J. Serrano está investindo em novos mercados: o de pisos para ambientes corporativos e o de revestimentos de paredes, persianas e móveis. A empresa do interior paulista quer ser a primeira fabricante nacional de produtos feitos a partir de um composto de PVC e poliéster, que antes estavam disponíveis no Brasil apenas por importação. "Há três anos estamos estudando esse segmento. O mercado corporativo tem um bom potencial e as persianas são cada vez mais utilizadas", afirmou ao Valor o diretor administrativo da J. Serrano, Miguel Naffah Perez.
Capacidade para processar 2,3 mil toneladas de fios de polipropileno/mês
A empresa sempre fabricou tapetes, tecidos para decoração, revestimentos de colchões e acessórios para estofados, em sua maioria feitos a partir do polipropileno, que representa 85% da matéria-prima utilizada pela companhia. A fábrica, em Vargem Grande Paulista (SP), tem capacidade de processar 2,3 mil toneladas de fios por mês de polipropileno. A empresa é verticalizada: na unidade faz desde a fiação até a confecção dos produtos. Para ampliar o portfólio com a nova linha, a companhia investiu US$ 7 milhões nos últimos dois anos. Os desembolsos envolveram a compra de uma máquina capaz de envolver o poliéster com o PVC, que torna a composição têxtil mais resistente e com maior durabilidade. Por isso foi desenvolvida para ser aplicada especialmente em ambientes de alto tráfego.
3 fabricantes no mundo
Os novos investimentos foram feitos na mesma fábrica, mas diante das perspectivas de demanda, a empresa vai construir um novo prédio na mesma área para a produção da nova linha e de produtos para confecções de colchões. A empresa tem capacidade de produzir 100 mil m2 de piso por mês, além de 200 mil m2 de outros produtos, como persianas. Hoje, estão sendo utilizados 15% dessa capacidade. "Alguns dos nossos clientes para essa linha são os mesmos que tínhamos, mas o setor de carpete corporativo é outro mercado. Temos de lidar com arquitetos e construtoras, o que é novo para nós", explicou Perez. Há apenas três fabricantes no mundo desse tipo de produto: na Suécia, na Finlândia e na Espanha. Para ter competitividade, a J. Serrano colocou sua linha 30% mais barata do que os importados. Mas o carpete corporativo de PVC, por exemplo, será cerca de 20% mais caro do que o de polipropileno.
Polipropileno é fornecido pela Braskem
Com os revestimentos, a J. Serrano acredita que seu faturamento anual deve aumentar em R$ 60 milhões, nos dois próximos anos. No ano passado, a empresa faturou R$ 318 milhões. "Nos últimos anos a empresa estava estagnada. Sentimos a necessidade de diversificar o portfólio", explicou o executivo. "Temos alta participação no mercado, mas temos enfrentado concorrência dos importados. Essa linha é mais de nicho, menos commoditizada. A gente sai um pouco dessa competição com produtos asiáticos", completou. Em tapetes, a empresa detém 55% no mercado brasileiro. Também tem pressionado os resultados da companhia a alta dos custos das matérias-primas. O polipropileno, fornecido pela Braskem, e o algodão são os únicos insumos nacionais. A juta e o poliéster vêm do exterior. Outro investimento que a J. Serrano está fazendo para melhorar o faturamento é a construção de uma fábrica no Chile, de tecido para colchões, em conjunto com um centro de distribuição de tapetes. A ideia é que o país seja uma plataforma de exportações para os principais mercados internacionais da companhia, como a Argentina e os EUA. São US$ 10 milhões investidos no Chile, para uma capacidade de 80 mil metros de tecido por mês. "Vamos atender mercados difíceis de serem atendidos por aqui", contou Perez./Valor B5
Número representa salto de 100% em relação a 2006
Com o avanço dos importados, a participação de mercado desses produtos no Brasil deve encerrar 2011, na casa de 29%. O número representa um salto de praticamente 100% em relação a 2006, quando as importações respondiam por 15% do mercado, conforme projeções baseadas em números da Abiquim. No ano passado, a participação ficou em 24%. Caso as projeções de executivos do setor se confirmem, a importação de resinas irá superar neste ano, de forma inédita, a barreira de 1,3 milhão de toneladas - até 2009, a importação permanecia abaixo de 1 milhão de toneladas anuais. Com isso, as importações tendem a crescer aproximadamente 13% em relação ao total de 1,2 milhão de toneladas do ano passado, enquanto as vendas internas devem apresentar retração na mesma base comparativa.
Entre 1990 e 2010, as importações tiveram alta acumulada de 699,74%
A situação enfrentada pela indústria local de resinas termoplásticas, representada por Braskem e Solvay Indupa, é semelhante àquela registrada pela indústria química em geral. De acordo com a Abiquim, a participação dos produtos importados no indicador de consumo aparente nacional (CAN) do setor, passou de 7% em 1990 para mais de 30% este ano. Entre 1990 e 2010, as importações tiveram alta acumulada de 699,74% ante variação positiva de 57,34% na produção no mesmo período. "Vemos que as importações são responsáveis por atender todo o crescimento da demanda doméstica neste ano", destaca a diretora de Economia e Estatística da entidade, Fátima Giovanna. A indústria química representa aproximadamente 19% do total de importações realizadas pelo Brasil, segundo a Abiquim. Por isso, é um dos setores da indústria nacional que mais prejudicam o saldo da balança comercial brasileira. Para este ano, a previsão do setor é de registrar déficit comercial de aproximadamente US$ 25 bilhões. O número, caso se confirme, representará um novo recorde histórico de importações, com alta de 20% em relação a 2010 e de quase 8% ante o recorde atual, de US$ 23,2 bilhões em 2008.
Até outubro, as importações somaram US$ 34,9 bilhões
A explicação para o maior déficit do setor é o incremento de quase 20% nas importações, que devem romper a barreira de US$ 40 bilhões. Até outubro, as importações somaram US$ 34,9 bilhões, com alta de 26,7% em relação aos dez primeiros meses de 2010. Diante do fluxo de produtos importados, a indústria química opera desde outubro do ano passado com taxas de utilização de capacidade inferiores a 90%.
Braskem tem sofrido com o avanço dos importados
Esta situação tem origem na perda de competitividade da indústria nacional, reflexo principalmente da valorização do real. Além disso, pesa a favor da importação a turbulência nas economias dos países desenvolvidos, a falta de infraestrutura, os custos das matérias-primas no Brasil e o incentivo fiscal concedido por determinados estados à importação. Única fabricante interna de produtos como polipropileno e polietileno, a Braskem tem sofrido com o avanço dos importados. No terceiro trimestre, as vendas domésticas da companhia cresceram 12% em relação ao segundo trimestre, um ponto porcentual abaixo do incremento da demanda interna no mesmo período. Na comparação com o terceiro trimestre, o indicador apresentou leve retração. "É a primeira vez em trimestres que tivemos estabilidade em relação ao ano anterior", alerta o presidente da petroquímica, Carlos Fadigas, para quem a reconquista do mercado perdido para os importados é um tema central neste momento. /Agestado