Portos incentivados movimentam metade das resinas importadas

A concessão de incentivos tributários a importações promovida por alguns estados, tem provocado uma mudança no perfil dos negócios da indústria química brasileira. Juntos, portos de Santa Catarina, Paraná, Pernambuco e Espírito Santo representam mais de 63% das importações de resinas realizadas neste ano até julho. Em 2008, essa participação era de 45,5%, segundo levantamento coletado com base em dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic). Maior prejudicada com o avanço das importações de resinas, principalmente via portos incentivados, a Braskem tem sentido os efeitos da turbulência mundial e por isso continua a operar com níveis reduzidos de taxa de utilização de capacidade. "Falamos de um equívoco cometido em um momento no qual o Brasil não poderia incentivar a importação", destaca o presidente da Braskem, Carlos Fadigas, preocupado com o avanço da crise na economia dos países desenvolvidos.


Derrubar margens
A petroquímica brasileira, além de ser afetada diretamente pela entrada de resinas por portos como o de Itajaí (SC), que responde por quase 50% do total importado, é afetada indiretamente pelo efeito dessa mesma situação na cadeia plástica. De acordo com dados da Abiplast, as importações de plásticos acabados a partir desses portos saltaram 3,4 vezes entre 2000 a 2010, ante uma expansão de 2,4 vezes na movimentação via porto de Santos (SP), o maior do País.
Mas, se por um lado os portos incentivados facilitam a entrada de produtos plásticos transformados, por outro é considerado um fator de competitividade para as fabricantes brasileiras desses mesmos transformados, que praticam importação de resinas. "O transformador, para concorrer com o produto importado, precisa recorrer à importação de resinas via portos incentivados", explica o presidente da Abiplast, José Ricardo Roriz. "A indústria de transformação, ao contrário da área de resinas, tem uma concorrência enorme e por conta disso as empresas são obrigadas a baixar os preços, derrubando suas margens", complementa o executivo.


Desaceleração
Pressionada pelo avanço dos importados, a indústria plástica reduziu a projeção de crescimento para o ano, de uma variação entre 6% e 7% para um intervalo entre 2% e 3%. A Associação Brasileira da Indústria de Embalagens Flexíveis (Abief), uma das mais representativas entidades do setor plástico, também revisou a estimativa de crescimento de 6% a 7% para 4% a 5%. "Iniciamos o ano bem, mas a partir do segundo trimestre o governo ampliou os juros e sofremos com a valorização do real, o que ampliou a concorrência do produto estrangeiro", explica Roriz.
Como consequência, as importações de transformados plásticos entre janeiro e setembro cresceram 24,79% em relação ao mesmo intervalo do ano passado, para US$ 1,97 bilhão. As exportações se expandiram 16,28% no mesmo período, para US$ 915,3 milhões.


Preço incomoda
A principal reclamação do setor é o preço das resinas vendidas no Brasil, entre 25% e 35% superior àquele praticado no exterior, segundo estimativas da Abiplast. Por isso, a questão principal para os transformadores é a competitividade da produção nacional. "É preciso haver uma condição que permita à indústria brasileira de transformação continuar atuando", ressalta o presidente da Abief, Alfredo Schmitt, citando outras adversidades enfrentadas pelas companhias brasileiras, como o custo da energia e da mão de obra e a falta de infraestrutura do País. Diante da perda de competitividade da cadeia plástica brasileira e da evolução das importações, a diretoria da Braskem já cogita a possibilidade de o mercado de resinas apresentar estabilidade em relação ao ano passado, o que contraria a tendência histórica do setor, de crescer o equivalente a duas vezes a variação do PIB. Com base nessa trajetória e na previsão de a economia brasileira crescer ao redor de 3,5% no ano, o mercado de transformados deveria apresentar alta de aproximadamente 7%.


Nova fábrica
Em 2011, no entanto, há previsão de queda nas vendas domésticas, o que poderia causar a perda de vendas equivalente a 300 mil a 350 mil toneladas de resinas. Esse volume corresponde à construção de uma nova fábrica, assim como a mais recente unidade construída no Brasil, pela Braskem, em Paulínia (SP). A fábrica, com início de operações em 2008, tem capacidade instalada de 350 mil toneladas anuais e demandou investimentos de aproximadamente R$ 700 milhões./Agestado