Queda em alimentos impede expansão de embalagens

Apontado como pilar da indústria brasileira de embalagens, por sua representatividade e resiliência a crises, o setor alimentício decepcionou no primeiro semestre, com queda no volume produzido, o que gera dúvidas sobre o ritmo de negócios no segundo semestre. A mesma incerteza ronda os fabricantes de embalagens, que já projetam uma segunda metade do ano menos favorável. O principal objetivo do setor para 2011 é evitar retração ante o ano passado. A queda do setor de embalagens simboliza o fraco desempenho da indústria de transformação nacional. E em especial das indústrias de alimentos e bebidas e produtos de higiene e beleza, que juntas respondem por quase 70% da demanda por embalagens no País.


Momento é de apreensão
Projeções da FGV, instituição responsável pela elaboração dos estudos do setor feitos a pedido da Associação Brasileira de Embalagem (Abre), indicam que a produção de embalagens em 2011 apresentará uma expansão de 0,96% em relação ao ano passado. Esse resultado viria principalmente da alta de 5% registrada no primeiro trimestre, ante o mesmo intervalo de 2010. No segundo trimestre, o indicador caiu 2%, situação que deverá se repetir entre julho e setembro. O quarto trimestre deverá ter leve retração, de 1% na comparação anualizada, segundo estimativas do coordenador de Análises Econômicas da FGV, Salomão Quadros.  Entre os fabricantes de embalagens, o momento é de apreensão. Explicada principalmente pela queda de 1,27% reportada na indústria de alimentos e 4,57% na de bebidas ao longo do primeiro semestre, ante o mesmo período de 2010. No caso dos produtos de perfumaria e cosméticos, a queda foi de iguais 1,27%.


Sinais negativos de demanda
O fraco desempenho desses setores serviu para reforçar a preocupação dos executivos, explicitada na sondagem elaborada pela FGV, ao longo do mês de julho, com mais de 100 companhias. Após sete trimestres consecutivos de percepção de demanda em ascensão, os empresários do setor passaram a considerar sinais negativos de demanda. Desde julho de 2009, quando o mundo ainda buscava dimensionar os efeitos da crise iniciada no final de 2008, a projeção negativa não era vista na pesquisa. Da mesma forma, os executivos destacaram que o nível de estoques na cadeia está excessivo. Foi essa percepção que levou o setor de embalagens a reduzir o ritmo de comprar de matérias-primas, caso de resinas plásticas ou papéis de diferentes tipos, como papelão ondulado ou papel cartão. A resposta nesse item foi mais negativa, inclusive, do que aquela dada pelos empresários durante a crise econômica iniciada nos EUA, 3 anos atrás.

Efeito cambial no setor é duplo
A sondagem elaborada pela FGV traz apenas 2 sinalizações positivas. A primeira é a de que os executivos acreditam que a situação dos negócios ao longo dos próximos 6 meses será um pouco melhor do que previam na última pesquisa, feita em abril. A 2ª é de que as condições para obtenção de crédito estão mais favoráveis. Essa situação, entretanto, pode ser revertida caso a situação da economia nos países desenvolvidos volte a piorar. A deterioração do ambiente de negócios dos fabricantes de embalagens é explicada, em grande parte, pelo real valorizado. O efeito cambial no setor é duplo: afeta a competitividade da exportação brasileira e estimula a importação de embalagens e produtos manufaturados. Essa combinação explica a queda de 7,34% na produção do setor de calçados e artigos de couro, segundo o levantamento elaborado pela FGV. Além disso, outros setores, caso de carnes bovinas, apresentaram queda (de 0,29%) devido em grande parte à desaceleração das exportações. O setor de vestuário e acessórios, cuja produção encolheu 0,87% no semestre, foi afetado pela disparada das importações. Sem expectativa de uma mudança substancial no patamar do câmbio, resta à indústria brasileira de embalagens torcer para que a economia brasileira mantenha crescimento na casa de 4% ao ano e que a decisão do governo brasileiro de aumentar o controle a práticas irregulares de importação de produtos tenha resultado. Do contrário, a indústria brasileira de embalagens, cujo faturamento anual supera os R$ 40 bilhões, ficará à espera de que o ano se encerre e que 2012 traga ventos mais favoráveis. /Agestado